Pelotas, RS, Segunda, 06.07.2009
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Artigo:



“Qualquer um pode cozinhar”, nos ensinou com profundidade filosófica, por assim dizer, Auguste Gusteau. Entretanto, ele mesmo acaba agregando que só os audazes chegam a ser chef. O crítico de culinária Antón Ego também afirma que embora um grande artista possa surgir de qualquer lado, não é qualquer um que o será.
A assertiva de Gasteau dirige-se a todos os homens e as mulheres de boa vontade que pretendam aprender a cozinhar e, analogicamente, na vida real brasileira, também a fazer jornalismo. A polêmica comparação entre jornalistas e cozinheiros feita pelo presidente do Supremo Tribunal Federal brasileiro, Gilmar Mendes, ao defender a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista nos faz pensar que o ministro tenha sido motivado pela inspiradora mensagem desses dois personagens da animação da Disney-Pixar, Ratatouille.
Mendes deverá haver refletido que se trocamos o ato de cozinhar por qualquer outra atividade em que supostamente a exigência principal é a mera capacidade criativa, então deve-se, por força judicial, evitar os preconceitos contra o possível aflorar de talentos. Some-se a isso o instigante fato do protagonista da animação em questão ser um rato. Os ratos do filme correm, saltam e escalam. São ratos que às vezes nos dão asco, outras vezes nos fazem rir e podem provocar, inclusive, respeito. Metaforicamente, pensou o ministro, igualzinho aos jornalistas.
A lógica juvenil de Gilmar Mendes faz todo o sentido enquanto não se conotar novamente o jornalismo e o jornalista. Os argumentos em favor da especialização da profissão que tenham como base apenas a técnica e a linguagem jornalística são facilmente contestados com a poderosa realidade de que o jornalismo, como técnica, é conteúdo de manual. É triste constatar que a maioria das faculdades de jornalismo do Brasil continua despejando nas ruas descerebrados reféns acríticos da ditadura do mercado em lugar de gente com formação filosófica e humana.
Mas isso não justifica a leviandade de alguns em defender a posição do Supremo. É tão óbvio que o que está em jogo não é o direito acadêmico ao jornalismo, senão a própria natureza da disciplina, que concluímos logo: muitos dos aplausos a Gilmar Mendes partem de pessoas ingênuas ou mal-intencionadas. As que se apressaram em dizer que o fim da exigência do diploma põe fim à injustiça de não se considerar o valor do “dom” e da capacidade criativa para o exercício do jornalismo parecem também influenciados pela moral de Ratatouille. É verdade que os especialistas e todos os cidadãos podem opinar com precisão e elegância, mas o uso desse direito não pode ser confundido com a atividade jornalística.
Essa posição é conservadora, ignorante e medíocre. Não se trata de defender um diploma, mas sim o valor científico das humanidades. A crítica e a ética podem ser aprendidas também em uma qualificada instituição universitária. A Internet democratiza o acesso à informação e ao direito de produzir opinião, mas não será a responsável, nem mesmo com blogs e twitters, por formar jornalistas.
O debate sobre jornalismo no Brasil representa hoje o lugar em que ganha relevância o papel das universidades na formação do indivíduo crítico. A formação do jornalista é o exemplo mais concreto de batalha contra a atual estrutura hostil ao jornalismo. O que se precisa é o estudo em comunicação num sentido amplo, necessariamente humano, de eixos pelo menos filosófico, sociopolítico, linguístico e semiótico. Investimentos em favor da qualidade do ensino que, dentro de suas especificidades, poderiam realizar outras ciências humanas contra possíveis ataques de moral de Ratatouille.

Aleksander Aguilar
Licenciado em Letras, mestrando em Política Internacional pela Universidade de Barcelona e jornalista, com diploma


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