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Estilo: O homem mais cool do planeta


Aleksander Aguilar - Especial de Londres, Inglaterra
Se depender da vontade de Jorge Mário da Silva, ou melhor, Seu Jorge, como batizou o amigo Marcelo Yuka (banda Furto, ex-baterista do O Rappa) seu próximo disco será gravado no Brasil. Talvez soe estranho que um dos principais símbolos da idéia do chamado Brazil cool, que se espalha pela Europa, necessite agendar seus trabalhos na terra natal, porém esse é mesmo o paradoxo que marca a carreira do carioca de 35 anos que, de uma favela em Belford Roxo, hoje filma em Hollywood ao lado de astros como Bill Murray, recebe elogios do também pop star Gael García Bernal e é classificado como "o homem mais cool do planeta", pelo jornal inglês The Times.
Seu Jorge, em entrevista exclusiva ao Diário Popular, em Londres, no show realizado na segunda-feira no Barbican Centre, adiantou em primeira mão que deverá atuar como traficante num filme na Venezuela, participará de um outro que será rodado em Florianópolis sobre a vida de Garibaldi e ainda encorporará um goleiro em um outro projeto cinematográfico. Tudo isso no seu primeiro espetáculo nas "Terras da Rainha" após um incidente com a imigração inglesa em maio deste ano.
O Mané Galinha, de Cidade de Deus, foi impedido de entrar em Londres, no início de maio, por estar com o visto de trabalho vencido. Na ocasião ele participaria de mais uma atividade de lançamento do seu segundo e mais recente CD, Cru, no programa de televisão Later... with Jools Holland, da BBC. Ele ficou detido no aeroporto Luton durante nove horas, desistiu de esperar e voltou ao Brasil. A cena, que não é rara de ocorrer com muitos brasileiros que tentam ingressar na Inglaterra, não impediu o retorno de Seu Jorge que novamente impressionou os ingleses com seu carisma e com sua musicalidade.
O cara é cool também no cinema
O público que praticamente lotou o Barbican se levantou das confortáveis cadeiras da pomposa sala de espetáculos, gritou, sambou e reafirmou a importância de Seu Jorge no cenário artístico mundial. Mesmo admitindo cansaço pelos 19 concertos que realizou em 22 dias nos Estados Unidos, o autor da trilha do filme a Vida aquática de Steve Zissou - estrelado por Bill Murray e que conta com músicas de David Bowie em versão feita pelo brasileiro em português - fez entender que o CD Cru não é só para francês ver, embora o projeto do álbum tenha sido concebido assim. O disco que está na Europa desde o final do ano passado foi elaborado para o público da França, mas chegou ao Brasil em agosto deste ano. Sem elementos eletrônicos e num esquema quase acústico, o trabalho anima e faz a festa bem no estilo que Seu Jorge afirma querer fazer. Na platéia do show e depois cumprimentando o artista no camarim, o ator Gael García Bernal (Diários de motocicleta e Má educação) também manifestou seu apreço. "Adoro o Seu Jorge. Realmente ele é um cara fantástico", declarou.
Cru, que Seu Jorge jura esperava vender no máximo cinco mil cópias, já ultrapassou as 50 mil cópias vendidas apenas na França. Mania de peitão, Tive razão e Eu sou da favela são algumas das canções que devem se tornar tão conhecidas como o hit Carolina, do seu primeiro álbum, Samba esporte fino.
Ele também não esconde o orgulho do trabalho que o ajudou para a projeção internacional. "Cidade de Deus foi muito importante na minha vida. Foi um manifesto e uma chance muito grande para os atores negros brasileiros", afirmou. E após o sucesso do filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles (que em outubro, inclusive, lançou outro filme, de produção inglesa, no 49 London Film Festival, O jardineiro fiel) Seu Jorge também esteve em cartaz no cinema nacional com o filme Casa de areia, dirigido por Andrucha Waddington.
O espetáculo londrino foi aberto pelo argentino Kevin Jonhasen, pouco conhecido pelo público brasileiro, mas que chegou a citar a parceria que tem com o músico Paulinho Moska. Seu Jorge ainda homenageou Marcelo D2, Nação Zumbi e Bezerra da Silva, mas para a desilusão dos seus fãs no Brasil disse não saber quando fará shows no país. Leia agora os principais trechos da entrevista.
Seu Jorge: "O samba é o grito de expressão do povo chamado Brasil"
Diário Popular - O show de hoje redimiu a Inglaterra com o Seu Jorge?
Seu Jorge - O público não tem nada a ver com o que ocorreu na imigração. Foi um erro, uma deficiência e até certo ponto uma discriminação, mas não estou culpando ninguém. Vim aqui para cumprir o que sempre quis que é dar atenção para os brasileiros e de certa forma repatriar o povo que está por aqui fazendo músicas e encontrando nossa gente espalhada por vários lugares no mundo. Ontem mesmo me flagrei sentindo uma grande alegria por ser brasileiro por causa do Ronaldinho Gaúcho. O cara acabou com o jogo, foi a grande estrela da partida contra o Real Madrid que o Barcelona venceu por 5 a 0. O técnico o substituiu aos 26 minutos do segundo tempo e o público o aplaudiu de pé. Isso é só um exemplo de como o Brasil pode ser bem representado no esporte, na arte e tenho certeza de que em várias esferas da vida. Precisamos construir lideranças porque hoje, infelizmente, não temos mais.
DP - A boa reação e receptividade do público que, apesar de muitos brasileiros, também estava composto por muitos ingleses, o surpreendeu?
Seu Jorge - É sempre uma surpresa a reação do público. Mesmo que a gente toque muitas vezes no mesmo lugar. O que a gente tenta fazer é tirar da cabeça das pessoas aqui a idéia de que deve haver formalidade para ouvir música, especialmente samba. Ele não tem lugar para existir. Ele não tem responsabilidade com uma estética obrigatória. O samba é o grito de expressão do povo chamado Brasil.
DP - O seu segundo CD solo, Cru, gravado e lançado na França, que chegou no Brasil em agosto, tem esse nome como uma metáfora de que ele só estará "pronto para o consumo" a partir da inferência de um público que deve prepará-lo para ouvi-lo?
Seu Jorge - Cru foi um apelido dado a partir de uma brincadeira com uma expressão francesa e foi, de fato, realizado para o público francês. Não estávamos procurando nenhuma sonoridade inovadora. Foi feito para os franceses conhecerem um pouco mais do Brasil pelo qual eles têm muito interesse em redescobrir.
DP - Como você encara ter sido chamado pelo jornal inglês The Times de "o homem mais cool do planeta"?
Seu Jorge - Não sei o que significa essa classificação. Não entendo do mundo fashion. Sou da favela. Acho legal o título, mas esse tipo de coisa a gente ganha pra perder. Meu negócio é fazer som, é botar o povo pra dançar, esquecer da conta do celular. Não é pra vir para um show e ficar ali sentado com "cara de conteúdo". A música que toco não é minha, é da humanidade. Pra mim música é que nem mulher gostosa que de tão ocupada fica com você só cinco minutos.
DP - Alguma idéia já articulada para o Brasil? Espetáculos arranjados? E o Rio Grande do Sul quando recebe o Seu Jorge?
Seu Jorge - Eu adoro mesmo o Rio Grande do Sul, mas em nenhuma parte do Brasil tenho realmente estado muito. No entanto, tenho um filme para fazer em Florianópolis sobre a vida de Garibaldi e quero muito gravar o próximo disco no Brasil. Sei que tenho agenda lá pela nossa terra, mas agora de cabeça eu não me lembro...


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