Pelotas, RS, Domingo, 07.10.2007
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Ponto de Vista:



A demagogia não tem limites e por isso, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acaba de invadir o domínio da lingüística, com o objetivo de impressionar o povo, emitindo um decreto que estabelece que "fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Distrito Federal". Em tempos de renovação de linguagem e acordo ortográfico, aliás aguardando assinatura de mais algum dos integrantes da entidade que reúne os "países de língua oficial portuguesa" para que se torne uma norma oficial, chama a atenção esta condenação pública do uso do gerúndio.
Ora, a língua não reflete apenas as questões formais de comunicação, mas o próprio espírito de quem a pratica. Usos, costumes, tradição, enfim, aquilo que se chama a "cultura" de um povo, estão embutidos no seio das orações, de suas composições e das palavras escolhidas. O uso do gerúndio é tipicamente brasileiro. Aqui se diz: estou trabalhando. Ou estou concluindo esta crônica para ser publicada. Já em Portugal se usa, estou "a trabalhar" ou "estou a concluir". Ora, se "a trabalhar" quer dizer mais ou menos o mesmo que "trabalhando", pois estabelece que se está em plena operação, já o "estou a concluir" é mais promissor do que "concluindo", pois deixa ao interlocutor a esperança de que logo logo o trabalho estará terminado. Se é verdade ou não, só os fatos posteriores o dirão.
Transformar esta questão semântica em ordenação jurídica é apenas uma boa demagogia, ou seja, o "ato de um líder político ou administrador", segundo o dicionário Caldas Aulete, "que procura obter apoio manipulando sentimentos e paixões populares". José Roberto Arruda conseguiu alguns dos seus objetivos. Por exemplo, passou a ser citado em outros círculos que não os especificamente políticos onde era conhecido. Seu ato, transformado em decreto, está sendo discutido em todo o País e até mesmo nos demais integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), além do Brasil, naturalmente, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Temos muitas diferenças, inclusive de comportamento, que resultam até no uso ou não do gerúndio, mas muitas semelhanças, inclusive pela língua comum que é perfeitamente compreensível pelo menos na norma culta, apesar das variações locais e que busca agora um acordo ortográfico. Aliás é bom que se lembre o que é o gerúndio, que reflete um estado de espírito e não apenas "uma forma nominal do verbo".
Quanto ao demagogo em questão, acho que ele pode ir preparando (forma bem rio-grandense de expressão, juntando o infinitivo e o gerúndio) suas justificativas.

Walter Galvani
Jornalista e escritor


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