Pelotas, RS, Sexta, 09.11.2007
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Artigo:



Um grande número de correspondências eletrônicas, contatos telefônicos e manifestações pessoais que recebi, desde que publiquei o artigo O castelo da Quinze, reforça cada vez mais minha convicção de que é preciso restaurar urgentemente aquele prédio, a fim de torná-lo digno outra vez do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade.
De todos os depoimentos que me chegaram, posso afirmar, sem desmerecer os demais: parece-me que o mais objetivo foi o enviado pelo amigo José Cláudio Soto Vidal, no último dia 7, com base em pesquisa própria e recordações que colheu de seus familiares mais próximos.
Em referência aos dados que divulguei no artigo, duas correções se fazem necessárias: uma, a de que houve tentativas recentes de reconstituição da história do imóvel e, outra, a de que o major foi casado, teve um filho e vários netos. De resto, segue valendo tudo o que escrevi.
Embora tenha adquirido o terreno em 1931, Antônio Duarte da Costa Vidal deu início à construção do prédio cerca de cinco anos depois, em 1936. O projeto arquitetônico trouxe-o de Montevidéu e baseava-se na ilustração de uma revista européia retratando um sobrado em estilo medieval. A responsabilidade pelo acompanhamento das obras coube, de início, a um construtor de nome Callearo.
A edificação não foi feita numa só etapa; teve que ser interrompida e reiniciada várias vezes, em conseqüência das freqüentes viagens que fazia o major, seja para o exterior, seja para a fronteira oeste do Estado, onde administrava suas propriedades rurais.
Antônio Vidal, filho de um oficial da Marinha, combatente na guerra do Paraguai, participou da campanha de Canudos, reformando-se de fato no posto de major do Exército. Além do castelo de Pelotas, mandou construir um quase igual no município de Itaqui.
"Pessoa de fino trato e vasto círculo de amizades, tinha fama de excêntrico", segundo afirma José Soto Vidal. Apreciador da boa poesia, também compunha versos, em vários gêneros, mas dava preferência aos "do tipo brejeiro ou jocoso" (lembre-se que Berilo Neves, em Pampas e coxilhas, identifica-o como "sonetista").
O amigo Soto Vidal, em seu relato, reproduz ainda um episódio curioso. No final de 1930, quando da recepção a Yolanda Pereira (que voltava à cidade depois de conquistar no Rio de Janeiro o título de Miss Universo), o major Vidal foi convidado a conduzir a homenageada em seu big automóvel, desde a estação férrea até a Praça, acompanhados de banda de música e grande número de populares. O cortejo começaria pela rua Dom Pedro II e passaria pela 15 de Novembro até chegar, afinal, à prefeitura.
Empolgado com a moça e o entusiasmo público, Vidal distraiu-se, seguindo pela Dom Pedro e esquecendo-se de dobrar na 15. Alertado pela população, não perdeu o bom humor: manobrou com maestria e retomou sorridente o trajeto original...
Este tema - o castelo e seu dono - é, como se pode aquilatar, de extraordinário interesse para a reconstituição do passado de Pelotas. Provavelmente ainda esconda, como o interior do prédio, mistérios que mereçam ser desvelados e, sobretudo, divulgados. Talvez alguém se proponha a levar adiante esta tarefa. Tenho certeza: haverá de prestar uma grande contribuição a nossa memória coletiva.

Mario Osorio Magalhães
Professor e historiador


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