Editorial:
A Argentina é um parceiro muito importante para o Brasil. Os dois países mantêm intenso intercâmbio comercial, aliás, participação marcante do Rio Grande do Sul; nesta área há diversos problemas por resolver, inclusive o da comercialização de arroz, que tem prejudicado muito a economia gaúcha.
Para convencer os investidores brasileiros a continuar confiando na economia argentina, a presidente eleita, Cristina Kirchner, promete melhorar as relações entre os dois países e aprofundar o Mercosul, subestimado pela política de Néstor Kirchner. Muitos analistas consideram que Cristina é politicamente mais consistente que o marido. Tem uma longa experiência política, pois já foi senadora e deputada mais de uma vez. Um dos seus grandes desafios será compatibilizar a necessidade de investimentos de empresas brasileiras com a pressão dos empresários argentinos por proteção a seus produtos. Com o real valorizado em relação ao dólar e ao peso, os investimentos de empresas na Argentina cresceram muito nos últimos anos. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e a nova presidente pede aos empresários mais investimentos em seu país. Porém, ela deve enfrentar resistência do setor empresarial argentino, que está preocupado com essa política e quer medidas protecionistas. Cristina defende uma associação estratégica com o Brasil, que seria base do desenvolvimento de toda a região. Embora afirme que apóia o Mercosul, ela não entrou no mérito da polêmica atuação do seu marido, que dedicou pouca atenção ao bloco de integração regional. A tendência é que, no novo governo, a Petrobras e a estatal argentina Enarsa deverão se associar para projetos conjuntos na América do Sul, e os governos dos dois países terão política conjunta em energia nuclear e ampliarão investimentos na Bolívia. Cristina defende a construção do megagasoduto do Sul, idealizado por Chávez, presidente da Venezuela, mas que é encarado com ceticismo pelo Brasil.
A prioridade da presidente eleita é o combate à pobreza e às desigualdades sociais. A continuidade da política de Kirchner influiu muito nas propostas e na vitória de Cristina, baseada no voto dos mais pobres, nos jovens de 18 a 34 anos e na população das cidades com poucos habitantes. Diferentemente do seu marido, ela chega à Presidência argentina com apoio da maioria do Congresso Nacional e uma sólida base entre os governadores de províncias. Além disso, o kirchnerismo também foi vitorioso em todas as oito eleições provinciais. Todo esse apoio é importante, pois um dos grandes objetivos da presidente é formar um "pacto social", um espelho idealizado do novo modelo corporativo de governo surgido na Argentina. Cristina enfrentará desafios inéditos: é a primeira mulher eleita presidente, uma política com experiência apenas como legisladora (todos os presidentes anteriores foram governadores) e esposa do atual presidente, o que gera expectativa sobre como compatibilizará as duas condições e conseguirá harmonia com aquele que pretende se consolidar como líder do peronismo.
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