Pelotas, RS, Sexta, 09.11.2007
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Ponto de Vista:



Tem um asparguinho (uma espécie de trepadeira) que teima em subir ao longo do corrimão. Durante algum tempo, era visível que chegaria até a porta, no segundo andar, mas parou. E disseram-me que antes do próximo inverno terá que ser podado para, na entrada da primavera, ir mais longe. Há uma semelhança entre a planta que cresce respeitando os ciclos da natureza e as pessoas: também temos etapas a serem vencidas para alcançar o nosso desenvolvimento - em alguns casos, apenas pelas nossas próprias forças, em outras, necessitando da solidariedade daqueles com os quais convivemos.
Foi a impressão que tive quando ouvi, no final de um retiro, o depoimento de jovens que participam de um programa de recuperação de dependência química - a Casa do Amor Exigente - dizendo que haviam, literalmente, chegado ao fundo do poço antes de terem coragem de pedir ajuda. Cada um deles detalhava o que o havia levado àquele estado lastimável, o mal que fizeram a si próprios, aos seus familiares e amigos, e o sinal que haviam recebido de que estava na hora de repensar e refazer as próprias vidas.
Pode parecer estranho traçar um paralelo entre o que aconteceu com o asparguinho e com a vida destes jovens. Mas não é. O tempo de parada no caminho da planta e mesmo o sofrimento que vem com a poda são, na maior parte das vezes, elementos fundamentais para que, superada a dor, marcados pela experiência, possamos não só ultrapassar uma etapa, mas vencê-la, amadurecidos e prontos para, com dizia um deles, "ajudar a criar meu filho".
Claro que fiquei muito emocionado com os depoimentos. Claro que pensei o quanto era bom aqueles meninos estarem dispostos a dar seus testemunhos. Claro que reconheci o quanto era salutar existirem programas como aquele, permitindo algo elementar: uma nova chance. Mas, também, olhando para o noticiário dos finais de semana, vi que eram uma minoria, diante da quantidade de jovens envolvidos no consumo de drogas lícitas, drogas ilícitas e vítimas ou causadores da violência.
No entanto, havia um indicativo: assim como o aspargo verdinho teimando em apontar para o sol e para a frente, ali estavam jovens que poderão ter problemas no futuro - como todos têm - mas que já descobriram um norte para a vida. E eles, hoje, são um bom sinal de que, na solidariedade de pessoas que estendem a mão em silêncio, há uma esperança que não pode e não deve sucumbir.

Manoel Jesus
manoel@ucpel.tche.br
Professor da Escola de
Comunicação da UCPel


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