Pelotas, RS, Domingo, 12.10.2003
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Exterior: A prostituição floresce na China

Diário Popular


A prostituição está tão difundida na China que até mesmo as mulheres mais cultas e instruídas estão aderindo à essa antiquíssima profissão. Quando Xun, uma delicada garota de rabo de cavalo, de 23 anos, originária da província de Sichuan, tornou-se o primeiro membro de sua família a entrar na faculdade, sabia que, freqüentando a conceituada universidade da cidade de Wuhan, no sul da China, poderia melhorar a vida de sua família, que vivera na pobreza por gerações e gerações.
Trabalhadores desempregados, sem nenhum seguro social, os pais de Xun subsistiam com a renda de uma pequena loja de conveniência pertencente a seu pai. Em Wuhan, ela foi trabalhar como garçonete, mas o pagamento mal cobria a mensalidade da faculdade. Quando o gerente de um hotel local lhe ofereceu um emprego com uma remuneração mais de dez vezes superior ao que ela ganhava servindo às mesas, Wu estava muito preocupada com a possibilidade de ter de voltar para casa e sentia-se esgotada e solitária demais para recusar a oferta. Tornou-se prostituta.
Sempre que um homem vem a seu hotel pedindo uma moça inteligente e culta, do jeito que ele quer, o chefe de Xun chama o "Número Um". Numa escala de quatro, esta é a classificação mais elevada, reservada para moças universitárias. Mas, raramente isso é uma fonte de orgulho para Xun. "A gente precisa sobreviver e continuar levando a vida e eu simplesmente preciso ignorar o lado negativo daquilo que agora estou fazendo", disse Xun, aluna da Faculdade de Finanças da Universidade de Zhong Nan. Xun pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome.
"Consegui enviar regularmente dinheiro a meus pais. Não me atrevo a mandar-lhes uma quantia muito grande porque poderiam desconfiar de onde está vindo esse dinheiro", disse ela.

Nas cidades de toda a China, a prostituição tornou-se tão espalhada que até mesmo a elite instruída está entrando nesse negócio. O Partido Comunista quase eliminou o comércio sexual na década de 1950, obrigando em parte alguns espiões de bairros a observar a chegada e a saída de visitantes masculinos em cada família e declarando o lenocínio como um delito grave, punido com a pena de morte.
Mas a prática foi ressuscitada na década de 1980, quando a China introduziu reformas de mercado ao estilo capitalista. Mulheres desesperadas que perderam seus empregos e benefícios estatais começaram a vender-se aos novos ricos, ávidos de aventuras. Hoje há mais de dez milhões de prostitutas em todo o país.
E agora, nem todas elas são operárias incultas de fábricas. Estudantes de faculdades e, recentemente, até moças graduadas, estão entrando nessa antiquíssima profissão. Muitas delas vêm das zonas rurais para a cidade grande despreparadas para o elevado custo de vida ou para a cultura materialista. Algumas não recebem ajuda financeira de seus pais e não podem dar-se ao luxo de pagar os estudos exercendo um emprego legítimo. Outras invejam suas colegas de classe que conseguem pagar suas mensalidades escolares e, além disso, freqüentam restaurantes finos, vestem roupas elegantes da moda e, nos fins de semana, viajam em aviões a jato para fazer excursões. Para muitas destas mulheres, a prostituição representa uma fuga da vida sombria e limitada, vivida por seus pais - empregados de fábricas, agricultores pobres ou trabalhadores desempregados. "Existe uma elevada demanda por garotas de programa bem educadas", diz Li Yinhe, conhecida pesquisadora do sexo da Academia Chinesa de Ciências Sociais.

A prostituição é uma questão muito embaraçosa para o Partido Comunista, que anteriormente construiu sua reputação sobre a eliminação dos males sociais. Por isso, o governo central ignora em grande parte a prostituição, muito embora algumas doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids e a gonorréia, estejam se espalhando pela população operária e ameaçando a saúde do país.
Mas está sendo muito difícil manter esta cegueira voluntária. Um jornal de circulação nacional informou recentemente que 8% das estudantes universitárias de Wuhan - o que significa pelo menos várias centenas - vendem seus corpos oferecendo favores sexuais em troca de dinheiro. Pequim obrigou o jornal, chamado Diário de Referência da Juventude, a publicar uma retratação e a demitir o repórter responsável pela matéria, Chen Jieren. Apesar disso, após a publicação do artigo, as autoridades de Wuhan iniciaram também uma repressão contra os proprietários de estabelecimentos situados ao longo da infame "Rua dos Bares", perto da Universidade de Wuhan, advertindo-os a não abrigar funcionárias sexuais.
Mas o atrativo desse negócio, tanto no lado da oferta quanto da demanda, ainda está frustrando as melhores intenções das autoridades.
Homens ricos em viagens de negócios continuam visitando a rua para se encontrar com moças universitárias - algumas que já são profissionais e outras às quais eles podem persuadir a entrar no ramo. "É uma tremenda tentação quando a gente vê esses homens ricos, porque eu sou uma estudante pobre", diz Wang Fang, uma universitária de Wuhan que aceitou um emprego na temporada de verão servindo bebidas no bar Big Mouth (Boca Grande) perto do campus. Wang diz que os homens lhe imploram para ir com eles em troca de dinheiro, mas ela resiste. Ela entende porém por que outras jovens sucumbem à tentação. "A vida de minhas colegas de classe é muito dura. Algumas ganham apenas 300 yuan por mês", ou seja, menos de 40 dólares.
Sem dúvida, nem sempre são mulheres desesperadamente pobres que se tornam prostitutas. Por exemplo, Qi, uma garota de 24 anos, nascida em Wuhan, que abandonou os estudos na Faculdade de Administração Econômica da Universidade de Hubei depois de cursar três anos, em parte porque via moças de sua idade ganhando milhares de dólares como acompanhantes ou garotas de programa. "A vida é curta e nós precisamos gozá-la", diz Qi, olhando o relógio de tempos em tempos.
"Não são apenas as moças de famílias pobres que estão fazendo este negócio. Moças de famílias ricas estão fazendo a mesma coisa. Ninguém detesta o dinheiro e ninguém tem receio de ganhar demais." Qi, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome, trabalha durante o dia numa drogaria vendendo maquiagem da Maybelline. Mas, algumas noites por semana, ela se instala em um sofá no luxuoso saguão de um hotel local cinco estrelas em Wuhan, onde facilmente encontra empresários em viagem procurando companhia.
Muitos especialistas chineses argumentam que o país deveria legalizar a prostituição. "Uma mulher tem o direito de fazer o que quiser com seu corpo, para ganhar dinheiro com seu corpo", disse Li, pesquisadora de sexo.
Além do aspecto da liberdade pessoal, a regulamentação do comércio sexual poderia ser essencial para conter a disseminação da Aids, que afeta pelo menos um milhão de pessoas, de acordo com estimativas de Pequim - alguns ativistas afirmam que o número é muito maior - e é talvez a maior crise que a China enfrenta. (As prostitutas entrevistadas para este artigo - todas elas moças educadas em faculdades - disseram que nem sempre usam preservativos e pensam que simplesmente lavando-se após o sexo podem evitar a doença)
"O governo está numa encruzilhada. Se legalizar a prostituição, arruinará sua reputação socialista. Mas se não o fizer, a Aids e outras doenças sexualmente transmitidas desestabilizarão a sociedade", disse Liu Dalin, professor da Universidade de Xangai. É uma escolha difícil. Exatamente como é difícil a escolha enfrentada por muitíssimas mulheres jovens da China.


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