Pelotas, RS, Domingo, 19.06.2005
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Cidade: O fim do êxodo rural?


Aleksander Aguilar
O número de pessoas residentes no campo na região de Pelotas, acompanhando a tendência em todo o país, parou de cair. Os dados populacionais do IBGE apontam que o êxodo rural massivo de diversos municípios da Metade Sul do Rio Grande do Sul e do Brasil está estagnado desde a década de 90. O que tem preocupado os pesquisadores da área é um fenômeno denominado êxodo rural seletivo. São os jovens e as mulheres que, predominantemente, têm deixado o campo e provocado a masculinização e o envelhecimento populacional do meio rural a ponto de comprometer a renovação demográfica e gerar diversos prejuízos.
O atual quadro do meio rural brasileiro gera problemas de sucessão de propriedades pela inexistência de herdeiros - mesmo num cenário em que inúmeras famílias reivindicam direito à terra - e contribui para a desagrarização do país que possui a maior superfície agrária do planeta, por conta da idéia de que a agricultura, do ponto de vista da manutenção de emprego e ocupação para o conjunto da população, tem importância reduzida.
A conclusão é do professor do Departamento de Ciências Sociais Agrárias da UFPel e doutor em Sociologia e Desenvolvimento Rural, Flávio Sacco dos Anjos, que tem trabalhado com o tema e aponta a necessidade de um projeto de desenvolvimento que converta a agricultura familiar em instrumento de redução das desigualdades sociais. "Os investimentos governamentais destinam-se à agricultura patronal, de exportação. O campo perde a capacidade de absorver a mão-de-obra e milhares de unidades de produção familiar foram desativadas", afirma o professor.
Esse processo, de acordo com o pesquisador, tem caracterizado as transformações que atravessa o meio rural e que foram produzidas fundamentalmente pelo modelo de modernização conservadora da agricultura. Na análise de Dos Anjos, houve desdobramentos francamente negativos de um projeto de desenvolvimento levado a cabo no Brasil entre os anos 1965 e 1979, durante os governos militares - período em que o país sofreu um violento processo de êxodo rural, sem precedentes. "Hoje, a partir da década de 90, verifica-se que muitas pessoas deixam de trabalhar na agricultura, mas não saem do campo. Dedicam-se aos famosos bicos, artesanato, fretes, limpeza doméstica ou pequenos comércios porque, por falta de políticas, não há condições de sobrevivência com a agricultura familiar. Ainda é mais interessante trabalhar assim do que buscar oportunidades que já não existem no meio urbano", analisa.
CORRIDA ENCERRADA
Os números do IBGE confirmam a análise. Hoje, segundo o chefe da agência em Pelotas, Rogério Krause, a população rural de Pelotas é de 7%, enquanto na década de 40 o número de residentes no campo chegava a 50% do total da população. "Mas atualmente o encantamento com as supostas oportunidades no meio urbano já passou. Os fatores que contribuíram para o êxodo rural estão enfraquecendo", avalia Krause. Nos anos anteriores a busca por escolaridade, por emprego e por serviços públicos mais qualificados, na opinião do chefe do IBGE, produziam o movimento em direção às cidades, entretanto ele acredita que tem ocorrido um incremento em infra-estrutura e serviços que colabora para que permaneça no campo. "Hoje se fala de telefone celular, por exemplo, de qualquer lugar. Investimento dos governos e inovação tecnológica entram nessa conta que gerou a estagnação do êxodo", reflete.
TROCA PREJUDICIAL
Dos Anjos reafirma os prejuízos decorrentes do fenômeno do êxodo rural seletivo. "A população economicamente ativa está indo para o meio urbano. Essa situação, também chamada de celibato rural, que antes era vista apenas como uma questão européia, tem ocorrido no Brasil e deixado conseqüências. Não se pode aceitar a tese da desruralização como algo inerente à modernidade", assente. A sugestão do pesquisador é o fomento de um apoio concreto à agricultura familiar. "Deve haver um novo discurso sobre a ruralidade que proponha a diversificação da produção, a criação e fortalecimento do tecido social e produtivo das zonas rurais e dos pequenos municípios. Isso implica em romper definitivamente com o vício de converter os espaços rurais em substrato exclusivo da produção agropecuária", critica.
QUEM VEIO E QUEM VOLTOU
A dona de casa Neli Quadrado Gomes é um exemplo. Ela e o marido Leovaldo Batista Gomes saíram da zona rural de Arroio Grande em 1973 para tentar uma vida mais confortável em Pelotas. "Tínhamos uma filha que queria estudar e naquela época não havia condições para isso se não saíssemos de lá", conta. Durante aproximadamente 20 anos eles viveram no Py Crespo e contavam com o trabalho informal do marido para garantir a renda familiar. Sem muito rendimento e com as dificuldades da vida urbana, eles decidiram, há quatro anos, voltar para o campo. "Onde nós morávamos havia muita violência", explica. Hoje o casal e um filho vivem no Monte Bonito e embora cultivem alimentos para consumo próprio o dinheiro vem do emprego que o marido conseguiu num comércio na localidade.
TROCA
O comerciante Almiro Buchweitz também saiu do meio rural, mas se instalou definitivamente na cidade. Ele é o proprietário de um restaurante no centro de Pelotas que é uma referência para os moradores da colônia. Situado na quadra da parada da maioria dos ônibus que "vão pra fora", expressão utilizada na linguagem popular, Buchweitz reúne diariamente dezenas de pessoas que aguardam o transporte no seu estabelecimento.
Em 1990 ele saiu da Costa do Arroio Grande, 2º distrito de Canguçu, onde plantava soja, milho e comercializava leite e tentou manter um restaurante no centro de Canguçu. "Mas aqui tinha mais vantagem e conseguimos nos estabilizar", relata. O motivo da saída do campo também foi proporcionar estudo para os filhos. "Minha esposa e eu ficaríamos sozinhos no campo, então decidimos acompanhar e mudar de vida", declarou. Ele ainda tem a sua propriedade rural, mas quem cuida são os antigos amigos e vizinhos porque o ritmo urbano foi bem assimilado. "Quase nunca vou lá. Não dá tempo", justifica.


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