Pelotas, RS, Sexta, 20.12.2002
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Ponto de Vista:



O inventor da roda

Sérgio Oliveira

Dizem que a roda, inventada na extremidade da península Ibérica, era originalmente quadrada. Arredondou-se depois de muito atritar-se com o solo, aos solavancos, produzindo hematomas nas nádegas dos carroceiros ou catapultando para fora do veículo aqueles que intentavam, para preservação da integridade do assento, em dirigir de pé. Em suma, a roda - esta maravilha, responsável hoje por índices de mortalidade que superam o das doenças e o das guerras, através dos acidentes de tráfego - não é resultado, como propalam os historiadores, da cultura humana, mas do acaso, esta loteria que às vezes premia e em outras, castiga.

A contemporaneidade desafiada por uma vasta gama de questões complexas, todas elas fruto do progresso, se vê obrigada a questionar: a cultura humana agregou bem-estar, satisfação, felicidade, ou plantou a antítese desses valores?

Partindo desse pressuposto, a invenção da roda foi benéfica ou catastrófica?

O privilégio dos viajantes chegarem mais depressa aos destinos, desfrutando da potência máxima dos bólides, dirigindo alguns sem habilitação; outros bêbados, drogados, sonolentos, indiferentes à sinalização e às regras de trânsito; e ainda considerando os praticantes de hobbies tresloucados, como os "rachas" e, certamente, o descaso com a vida e integridade física alheias, deveu-se indubitavelmente à roda, esse invento tão sujeito ao crivo ético quanto a pólvora, a dinamite e a fissão atômica, por exemplo. Não do ponto de vista da ciência pura, pois as coisas em si são neutras por ocasião do descobrimento/invento, e, sim, sob a ótica da ciência aplicada, que se obriga a indagar: "Isto é bom ou ruim para a humanidade?" Ou em relação à roda utilizada pela indústria automobilística: "As vantagens obtidas a partir deste invento, quando utilizado em automóveis, justificam seus efeitos colaterais em morbomortalidade?" Os aficionados de Maquiavel responderão que sim, pois para eles, "os fins justificam os meios". Outros - e não poucos - inteirados da realidade estatística, comprovante de que o trânsito mata a cada ano o equivalente a 20 bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima, dirão que não.

Os contemporâneos ao desgraçado inventor da roda, pudessem eles ter vislumbrado o futuro, provavelmente teriam assado o infeliz em fogueira, como se procedia com as bruxas e os alquimistas.


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