Artigo:
Sem compromisso com a Terra
Sérgio Cruz Lima
"Somos o maior poluidor do mundo. Mas, se preciso for, vamos poluir ainda mais para evitar uma recessão na economia norte-americana." A opinião pública internacional recorda com indignação a declaração de George W. Bush, presidente dos Estados Unidos - país responsável por quase um quarto da poluição atmosférica expelida hoje no céu do planeta - em março de 2001, quando a poderosa nação do Norte disse um peremptório não ao Protocolo de Kyoto. Pelo poder de fogo da águia norte-americana, a fala de Bush, cuja campanha eleitoral foi custeada pela indústria petrolífera, caiu como um torpedo sobre o Tratado do Clima. Além de se colocar na contramão da moderna história ambiental do planeta e sua humanidade, o presidente foi mais longe. Provocou a ira da comunidade científica internacional ao permitir a exploração de petróleo em santuários naturais do Alasca. Pois, pasmem! Mister Bush ataca de novo. Ao apresentar o "plano norte-americano" alternativo ao Protocolo de Kyoto, para conter a poluição atmosférica originária da queima de combustíveis fósseis responsáveis pelo aquecimento global e a conseqüente onda de secas e inundações crescentes no planeta, mais uma vez desdenha o mundo em que vive. Do torpedo inicial, a nova proposta é recebida como uma bomba nuclear. Menosprezando o concurso de 157 chefes de Estado que se reúnem desde a Rio/92, propõe a redução de 183 para 151 toneladas de gás carbônico para cada milhão de dólares do PIB nacional até 2012. Uma diminuição ecológica de 18% em relação aos índices atuais. Mas o presidente esconde da opinião pública um referencial relevante, como se os ambientalistas não soubessem fazer as contas da morte matemática e real do planeta. Ele omite que o crescimento do PIB norte-americano, no mesmo período, deverá alcançar 30%. Ou por outra: que o resultado do seu plano alternativo, em termos absolutos, significará um aumento perverso das emissões poluentes norte-americanas em 14%, contraditando a informação por ele mesmo anunciada, quiçá endossada pelo povo de seu país. Nem mesmo o discurso articulado de George Bush, guindado à condição de herói mundial pelos norte-americanos na cruzada contra o terrorismo internacional, é capaz de ocultar a real intenção do país de virar as costas para o Tratado do Clima. Todas as propostas anunciadas por ele atrelam a redução da poluição atmosférica ao crescimento econômico da mais rica e poderosa nação do mundo. Aí reside o fulcro da discussão. A economia de Tio Sam, primeiro; o mundo e a humanidade, se puderem esperar e ainda se envenenar mais, depois. Isso fica bem explícito. É um trágico golpe de marketing. Ao vincular as metas de redução das emissões atmosféricas da indústria norte-americana ao desempenho econômico do país, o presidente não propõe a redução da poluição que os Estados Unidos lançam na atmosfera planetária; propõe uma espécie de permition para o aumento das emissões poluentes no mesmo ritmo do crescimento do PIB norte-americano. O golpe que o mundo todo entendeu, mas que não quer engolir, já tão asfixiado desde as chaminés da Revolução Industrial, é simplesmente este. Mister Bush, meus amigos, não tem qualquer compromisso com o mundo civilizado. E isso é terrorismo ambiental. Fato evidente: os Estados Unidos possuem um só compromisso - consigo mesmo!
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