Mário Osório Magalhães:
"Outros haverão de ter/o que houvermos de perder./Outros poderão achar/o que, no nosso encontrar/foi achado, ou não achado,/segundo o destino dado./Mas o que a eles não toca/é a Magia que evoca/o Longe e faz História." Utilizando esses versos - de Fernando Pessoa - como epígrafe, o escritor Aldyr Garcia Schlee compôs o prefácio do meu livro, História do Rio Grande do Sul, que escrevi este final de ano por encomenda da Escola Mário Quintana (e que se encontra à venda, com exclusividade, na Livraria Santo Ivo -Galeria Zanin, rua Félix da Cunha, defronte à Católica). Não foi apenas a melhor crítica que recebi, até hoje, sobre qualquer dos meus livros: foi o melhor presente que ganhei, em todos os novembros, de aniversário; foi o mais longo e, também, o mais belo cartão que me enviaram, até o momento, às vésperas de um Natal. Mais do que isso: considerando-se que alguma vaidade, bem dosada, faz muito bem à saúde, é para mim a certeza de que poderei viver, com alegria e paz, um novo ano. Diz assim o prefácio: "O futuro será, o presente é, o passado foi. Parece simples; mas nesse eterno jogo do tempo com cada um de nós e com toda a Humanidade, estamos aparentemente condenados a uma submissão tão grande ao presente, por ele parecemos tão dominados, que é como se perdêssemos sempre e não resistíssemos a sua dimensão avassaladora. O bom é que - mesmo pensando que perdemos o jogo a cada segundo, minuto, hora, dia, mês, ano... - não desistimos; e, não encontrando maneira melhor de dele desfrutar, tendemos a fazer de conta que não perdemos; isto é, refugiamo-nos no sonho e na memória. Como que driblamos o presente no sonhar e no recordar; e, assim, vivendo uma sucessão infinita de presentes, puxados para trás ou empurrados para a frente, levamos a vida e ainda nos sentimos autorizados a acreditar no futuro e ter esperança; e a relembrar o passado, e ter saudade. E temos a salvação dessa "Magia que evoca o Longe"... Tudo porque o que acontece mesmo, nesse nosso jogo com o tempo, é que somos levados a driblar a nós mesmos sempre e sempre, ante a contraditória imponderabilidade do presente, que só faz fugir de nós a todo o instante e que assim, de fato, a cada instante se faz passado - tanto que, se nos descuidamos, logo logo faz do agora antes e do hoje ontem; faz do presente que está sendo... presente que já não está sendo - presente que já não é presente, porque já foi. Mas, há essa 'Magia que evoca o Longe e faz História'. Nossa dimensão temporal e histórica - a condição humana - segura-nos o presente na exata medida de nossas vidas; que é também a exata medida de nosso passado. Por isso, para nós, viver é sempre estar encontrando o presente no passado; e trazer o presente do passado constitui a marca de nossa temporalidade e de nossa historicidade. Por isso, fazemos nossa História; e temos História. Narrar a História; aí já é outra história... Mas narrar a História também é fazer História... Isso tudo eu penso (pensei) enquanto escrevo (escrevia) estas linhas, depois de ter lido a História do Rio Grande do Sul que Mario Osorio Magalhães foi buscar entre 1626 e 1930 e nos traz neste livro que ele quis pequeno e modesto mas no qual 'consegue conciliar a interpretação mais profunda da nossa história regional com a narrativa pormenorizada, porém sintética, dos fatos que se sucederam'. Isso tudo eu penso (pensei) porque reconheço em Mario Osorio Magalhães - independentemente de ser meu amigo querido, duplamente ex-aluno e colega nas mais variadas formas - um tipo muito singular de historiador que, apesar de seus dotes e ares de ficcionista (até parecido fisicamente com Machado de Assis moço), tem um compromisso figadal com a História, especialmente com a nossa História de Pelotas (que é quase a História da família dele, porque também é a História de Pelotas do avô dele - Fernando Osório) e a própria História do Rio Grande (que se confunde, na paz e na guerra, tantas vezes com a História do General Osório - trisavô dele). Assim, Mario - histórias à parte e sem exagero - está por dentro da História. Está tão entranhavelmente ligado ao passado de Pelotas e ao passado do Rio Grande do Sul que só ele mesmo para, quase por compromisso de vida e bem a sua maneira, trazer até nós o presente desse passado; e fazer História. Mario dá tal tratamento literário a sua narrativa que mais parece um memorialista que testemunhou tudo, emergindo de muito longe com os fatos - para dar seu depoimento e transmitir o vivido aos contemporâneos e às novas gerações, com a naturalidade, a seriedade e as explicações de quem tudo sabe e tudo viu. Consegue, assim, sem necessidade de estabelecer uma relação mítica com o passado e sem se deixar dominar pelo espírito de comemoração - tão ao gosto, ainda, da maioria dos historiadores - construir um relato que revê e reelabora o processo civilizatório sul-rio-grandense com a clareza e a precisão de uma ótica muito particular, acentuada pela marca característica de seu refinado senso de humor e permeada de sua subjacente ironia. 'Outros poderão achar o que, no nosso encontrar foi achado, ou não achado, segundo o destino dado.' Agora (depois): o que é que foi, o que foi que é na História do Rio Grande do Sul - está aqui; está tudo aqui, para que o leitor possa encontrar e melhor compreender o sentido da formação histórica sul-rio-grandense, sem perder de vista a importância das datas e dos acontecimentos - exatamente como quis Mario Osorio Magalhães."
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