|
|
|
|
| |
Brasília Urgente:
Xifópagos Mônica Waldvogel
O grande impasse do senador Antônio Carlos Magalhães é tentar se defender antes de compreender em toda a extensão e gravidade o processo em que se enfiou. É até natural que, rei da Bahia nos últimos decênios e vice-rei do Brasil nos últimos 15 anos, julgue-se acima do bem e do mal. Talvez por isso não perceba que, neste episódio, ele, o rei, ficou nu. É difícil passar a vida no comando do poder, distribuindo ordens e, de um momento para o outro, se ver acuado como réu de um interrogatório agressivo e humilhante. Ouvir desabafos politicamente corretos de uma senadora e ter de calar; ouvir questionamentos irrespondíveis e gaguejar, deixando transparecer na fronte fervente a perplexidade de sentir o mundo lhe desabando à cabeça. Garante que não mandou violar o painel secreto, apenas leu a lista que Arruda lhe levou e teceu comentários sobre ela. Comentários prolongados, devem ter sido, porque o tema não lhe saiu da cabeça: muito tempo depois, ainda o excitava - tanto que há pouco o trouxe à tona espontaneamente, numa estabanada conversa com os estabanados procuradores da República. Ok, isso é fazer uso político de uma informação que a lei não lhe facultava saber. Dizer vagamente a um senador do PT que sua líder não votou conosco (traduzindo: que a senadora Heloísa Helena votara contra a cassação de Luiz Estêvão) tem um quê de malícia e parece ter um quê de chantagem política, como quem adverte: daqui para a frente, vocês, petistas, estão na minha mão. Está bem, não deu nenhuma ordem, apenas leu a lista levada pelo senador José Roberto Arruda, teceu comentários, depois detonou bravatas por aí, como é do seu estilo. Não é pouco. Se fez isso, cometeu grave ofensa ao Senado e, como seu presidente, prevaricou, ao compactuar, em inaceitável displicência, com uma irregularidade que infringia o regimento do Senado e afrontava a Constituição e a democracia. Se Arruda for punido porque mandou violar, ACM está entalado até o goto com esse rolo, porque usufruiu da violação e porque calou ante a irregularidade, quando seu cargo lhe exigia punir. Em sua função de presidente da Casa, não garantiu o correto cumprimento do regimento. Agiu mais como um coronel do que como um político responsável pela instituição. Decidiu segundo sua ética de rei ou vice-rei - eu posso tudo. A essa altura, Arruda e ACM são xifópagos, não há como descolar um do outro. A essa altura, o centro da discussão é que uma irregularidade gravíssima foi cometida; quem a cometeu é culpado, mas quem o acobertou também será, ainda mais quando se percebe que o acobertador era exatamente quem tinha o dever de punir o culpado e restaurar a moral atingida.
»Capa | |
|